Lembra daquela época de expectativa e uma certa ansiedade antes do lançamento do Star+? O serviço chegou prometendo preencher uma lacuna importante, trazendo aquele catálogo mais maduro que a gente sentia falta na plataforma principal, com filmes, séries e toda a grade de transmissões esportivas da ESPN. A grande sacada estratégica da empresa na América Latina foi empacotar tudo no que batizaram de Combo+. Naquelas semanas que antecederam a estreia, as redes sociais viraram um misto de hype e cobranças pelos preços oficiais, algo que a própria Disney fazia questão de alimentar respondendo os usuários com memes. Quando a poeira baixou, a matemática revelou uma jogada agressiva. A conversão do dólar na época jogou o pacote ali na casa dos R$ 45 mensais, enquanto a assinatura avulsa do Star+ ficava na faixa dos R$ 39. Era um valor que batia de frente com o plano mais caro da Netflix, de R$ 45,90, entregando a mesma qualidade de imagem e telas simultâneas. Rolou até um período de teste gratuito para fisgar quem ainda estava em cima do muro e um esquema de migração automática no faturamento para não dar dor de cabeça a quem já assinava algum dos serviços.
Avançando no tempo e mudando o foco para o cenário global, a tática de aglutinar conteúdo se transformou na força motriz da empresa. A recém-anunciada grade de lançamentos de julho de 2026 para o Disney+ e o Hulu nos Estados Unidos mostra exatamente o tamanho do monstro que o serviço se tornou. A lista é um verdadeiro saladaço cultural. Estamos falando de uma injeção absurda de conteúdo que inclui desde Bluey Compilations, Dancing with the Stars: The Next Pro e o especial Disney Celebrates America, até a 15ª temporada de King of the Hill e Descendants: Wicked Wonderland. O pacote despeja ainda um episódio prequel da série Adults do canal FX, Furious, House of Stassi, Locker Diaries: Descendants, Pompeii: Out of Time acompanhado pelo Tom Hiddleston, a 22ª temporada de Project Runway, a tradicional SharkFest, o segundo ano de A Shop for Killers, The Simpsons: Simpsley, o retorno de Soy Luna: Let’s Roll Again, a 6ª temporada de Theme Song Takeover e They Fight. É uma vitrine que não acaba mais e que pulveriza as barreiras entre os nichos de audiência.
No meio desse mar de opções, algumas produções originais exigem uma atenção especial pelas premissas completamente distintas. Pega o caso de Abandoned, que já chega com todos os episódios disponíveis no Hulu. É uma série documental que escava um mistério real absurdo de 1984, quando três crianças de 2, 4 e 6 anos foram largadas sozinhas numa estação de trem em Barcelona. Elas não sabiam explicar quem eram, cadê os pais ou o que estavam fazendo ali. Ninguém nunca apareceu para procurá-las. A vida seguiu, elas foram adotadas por dois educadores da cidade, ganharam uma família amorosa e estrutura. Só que agora, 40 anos depois, esses adultos sentem a necessidade visceral de desenterrar o próprio passado e entender por que foram abandonados. Tem toda aquela carga emocional de true crime que gruda a gente no sofá.
Para quem curte uma pegada mais focada em realities e fandom, o Disney+ traz King & Prince: Our Meet-Up in LA. Ren Nagase e Kaito Takahashi encaram uma espécie de gincana em Los Angeles. Os dois, que sempre foram unha e carne, acabam sendo separados logo de cara e precisam resolver uma série de desafios inusitados pelas ruas da cidade para conseguirem se reencontrar. É o tipo de formato despretensioso que funciona muito bem para engajar a base de fãs.
Já a animação continua sendo a espinha dorsal de tudo. A garotada ganha novos episódios de Magicampers, acompanhando os jovens exploradores Darly e Loomis num acampamento de verão para criaturas mágicas numa ilha fantástica. Eles resolvem missões que vão do topo da Montanha da Melodia até as profundezas da Caverna Sem Fim, construindo aquelas lendas de amizade e trabalho em equipe que são o feijão com arroz bem feito da Disney.
Mas o prato principal da temporada é, de longe, o segundo ano de X-Men ’97. A série já chega jogando três episódios na nossa cara e encontra a equipe de heróis completamente fragmentada e espalhada por diferentes eras temporais, tentando de qualquer jeito descobrir como voltar para casa. Enquanto isso, de volta aos anos 90 originais, novos inimigos e uma onda renovada de intolerância antimutante ganham tração exatamente porque os X-Men sumiram do mapa. É nostalgia envelopada com o mesmo roteiro cirúrgico que vimos na primeira temporada, deixando no ar a sensação de que o streaming não vive apenas de inovar formatos, mas de entender profundamente como reciclar aquilo que o público já consagrou.



